As fontes anónimas – algumas regras simples e fáceis de cumprir

Escrito em Maio 6, 2012 - Na categoria Deontologia | Comente

HOJE, depois de ler mais uma série de artigos com fontes anónimas ou não identificadas em vários jornais, fui reler o que diz o Livro de Estilo do Público sobre o assunto e decidi transcrevê-lo aqui. E deixo duas perguntas: É assim tão difícil comprir estas regras? Por que é que outros media não as seguem?

Relações com as fontes

60. O jornalista do PÚBLICO deve alimentar uma relação assídua com as suas fontes de informação, na base da responsabilização, confiança e respeito mútuos. Uma relação de independência implica que se evitem informações exclusivamente recolhidas em briefings e se recuse de forma lapidar a combinação de notícias ou participação em qualquer género de campanha; pagamento ou benefício de favores, ameaças ou chantagem de qualquer espécie. Todo o incidente com fontes de informação, oficiais ou particulares, deverá ser imediatamente comunicado à Direcção do jornal.

61. Uma fonte é sempre parte interessada – logo, parcial e incompleta – e o jornalista do PÚBLICO deve recusar o papel de mensageiro de notícias não confirmadas, boatos, “encomendas” ou campanhas de intoxicação pública.

62. Só em casos excepcionais se fará a recolha de informações, testemunhos ou simples opiniões, incluindo a imagem fotográfica, em situações de constrangimento ou limitação artificial, de ordem emocional, psicológica ou até física, das pessoas envolvidas. Nessas situações, os constrangimentos serão devidamente assinalados.

63. As entrevistas feitas por jornalistas do PÚBLICO devem ter apenas a presença do entrevistado que, evidentemente, poderá gravar a conversa, desde que se comprometa a não a divulgar antes do jornal. Em caso algum, assessores de agências de comunicação, que trabalham com várias redacções e para vários clientes, poderão assistir a entrevistas feitas por jornalistas do PÚBLICO.

64. Como regra, os jornalistas do PÚBLICO não mostram as suas entrevistas aos entrevistados antes de serem publicadas. Em caso algum deve o jornalista aceitar que o conteúdo da entrevista seja alterado e/ou adaptado às conveniências do entrevistado. Em caso de dúvida ou conflito, é a gravação que faz fé. Para evitar conflitos desnecessários e eventualmente prejudiciais para o jornal é conveniente que estes procedimentos de princípio sejam negociados previamente à entrevista.

65. Só em casos excepcionais se farão entrevistas por escrito. Quando isso aconteça, o facto deve ser devidamente assinalado no texto e explicadas as razões do procedimento.

66. A transcrição de qualquer entrevista implica, por regra, adaptar a linguagem oral à linguagem escrita, mas tendo a preocupação de não perder a espontaneidade, e reduções substanciais à transcrição integral das perguntas e respostas. Esse trabalho tem como regra de ouro respeitar as ideias expressas pelo entrevistado, sem deturpações ou cortes que alterem o seu sentido ou as coloquem fora de contexto.

67. As expressões “diz-se que”, “consta que”, “parece que” referem-se a boatos e não a notícias e os boatos não se publicam. Mas a persistência de rumores pode causar efeitos relevantes ou justificar uma investigação e daí resultar matéria publicável.

68. Uma informação deve ser atribuída à fonte de origem, identificada com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função. O jornalista deve bater-se sempre por esse nível de identificação. A identificação – e a individualização – da fonte favorece a autoridade e a credibilidade da informação.

69. Formulações do tipo “o Governo está a pensar…” não são admissíveis nas páginas do PÚBLICO. “O gabinete do primeiro-ministro declarou…” é também uma expressão a evitar: só as pessoas podem fazer declarações.

70. A recusa de identificação de uma fonte sem justificação plausível não é aceitável. O carácter fechado da administração pública portuguesa, onde existem despachos que obrigam os funcionários ao silêncio ou à autorização prévia de ministros e secretários de Estado para prestarem declarações ou fornecerem informação, não pode ser aceite como álibi ou facilidade pelo PÚBLICO. Uma das funções essenciais deste jornal é modificar hábitos instalados de natureza antidemocrática e inconstitucional, e não aceitá-los passivamente.

71. Da mesma forma, a recusa sistemática de assessores de imprensa de entidades públicas, pagos por todos os portugueses para exercerem essa função, de não quererem ver o seu nome nos jornais (ao mesmo tempo que recusam o contacto directo do jornalista com o responsável público) tem de ser contrariada. Os gabinetes não falam, Belém, São Bento ou as Necessidades também não: só as pessoas podem fazer declarações.

72. Quando o jornalista está em condições de assumir a informação – isto é, quando a confirmou junto de várias fontes independentes entre si, embora todas tenham exigido o anonimato – deverá noticiá-la no PÚBLICO sem necessidade de recorrer às habituais, retóricas e desacreditadas fórmulas do género “fonte digna de crédito”, “fonte segura” ou “fonte próxima de”. As fontes, a sê-lo, devem estar sempre bem colocadas para falar sobre o assunto. “Segundo as nossas fontes” é outra expressão banida nas páginas do PÚBLICO. Um jornal bem informado não precisa de justificar permanentemente as suas notícias. Assume-as e responsabiliza-se por elas.

73. Nos casos de blackout informativo, é aconselhável que a editoria pondere cuidadosamente o reatamento de uma relação noticiosa normal com a entidade ou individualidade que entendeu cortar com os media, por esta ou aquela razão.

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