As angústias de um professor de jornalismo
Escrito em Fevereiro 8, 2009 - Na categoria Ensino do jornalismo | 13 Comentarios
TERMINADO que está o período de avaliação, encontro-me mais uma vez a preparar as cadeiras do segundo semestre. E a angústia é sempre a mesma: de que forma posso adaptar ainda mais os conteúdos às exigências do jornalismo do século XXI? Com os recursos de que disponho, como é que posso fazer com que os alunos entendam melhor os novos tempos que já chegaram?
No semestre passado, reservei 25 por cento da nota da cadeira de Produção Jornalística àquilo a que chamei “reputação online”, uma forma de obrigar os alunos a criar blogs, fazer perfis nas redes sociais, guardar links no Delicious, pôr fotografias no Flickr, acrescentar vídeos no Vimeo, com um objectivo final: o seu nome profissional – sim, tiveram de escolher um depois de consultar a CCPJ para não haver repetições – deveria constar nos primeiros resultados de uma pesquisa no Google. Com raras excepções, o desafio foi aceite e muitos conseguiram atingir o objectivo. Pelo que consigo ver, muitos alunos continuam ainda a alimentar esses espaços, mesmo depois da nota atribuída, o que me alegra bastante.
Todos os anos, tenho também incentivado os alunos a publicar em jornais nacionais os melhores trabalhos que fazem para as minhas cadeiras e a lista de artigos publicados é já bastante razoável. As regras são simples: o artigo tem de ser sobre um tema fora da actualidade mais imediata, tem de adaptar-se à publicação de destino, tem de ser “vendido” sem qualquer menção ao professor da cadeira. Este fim de semana, por exemplo, o artigo do Perfil do Futuro da revista Pública foi feito orginalmente para Produção Jornalística no semestre passado. No dia 11 de Janeiro, o tema de capa da Notícias Magazine e um outro artigo sobre hipoterapia na mesma revista foram feitos para Atelier de Jornalismo e apresentados no último semestre do ano passado. Os exemplos podiam ser muitos, mas fico-me por estes que são os mais recentes.
Apesar destas pequenas vitórias (que me apeteceu partilhar pela primeira vez), sinto que o ensino do Jornalismo nas nossas universidades está ainda demasiado espartilhado pelas divisões tradicionais entre jornalismo escrito, radiofónico e televisivo. Esse facto faz com que, todos os semestres, sinta a necessidade de adaptar conteúdos, tornando-os mais abrangentes, de forma a quebrar as barreiras entre os vários jornalismos. Fazer jornalismo nas redacções nos próximos anos vai ser cada vez mais trabalhar para a Internet e saber aproveitar as suas potencialidades para contar uma estória. É por isso que estes dois textos, com quase um ano de intervalo, me têm feito pensar: In Digital Age, Journalism Students Need Business, Entrepreneurial Skills e Journalism Education’s Broader, Deeper Mission.
Estamos a ensinar aos nossos alunos as competências de empreendedorismo de que eles realmente vão precisar? A nossa missão como professores de jornalismo deve estender-se até onde? No meio desta revolução em marcha, e com apenas três anos de licenciatura, que adaptações é necessário fazer ao currículo para que tenhamos tempo de dar conta destas transformações e ao mesmo tempo insistir nos princípios básicos do jornalismo sem os quais nada (de interessante ou útil) é possível? As universidades, como instituições, querem saber desta conversa para alguma coisa?
Tenho mais perguntas do que respostas e, como sempre, o tempo urge. As aulas começam já no início de Março…
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13 Respostas a “As angústias de um professor de jornalismo”
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[...] by Manuel Pinto in Jornalismo. trackback É este o título de um post de António Granado, no Ponto Media. Excepcional – pela extensão e pelo carácter. Partilho as preocupações que [...]
É, caro Antonio, estamos nesse mesmo dilema. Neste momento estou aqui a preparar as aulas de Redação Jornalística e Legislação e Ética em Jornalismo para o segundo ano do Curso de Jornalismo da UFMS. E a pergunta é sempre a mesma e na linha do seu raciocínio: “de que forma posso adaptar ainda mais os conteúdos às exigências do jornalismo do século XXI? Com os recursos de que disponho, como é que posso fazer com que os alunos entendam melhor os novos tempos que já chegaram?” Esperamos consegui-lo e que nossos alunos estejam mais “conectados”. Abraços.
Caro António Granado, como jornalista e, agora, finalista de Comunicação Social e Educação Multimédia (ESECS-IPLeiria), também me debato com as mesmas questões. Não que seja docente, mas olhando para o panorama actual do jornalismo, ao nível da empregabilidade, mais pertinentes considero as inquietações que refere.
Julgo que são exemplos como o seu, do Luiz Carvalho (Instante Fatal) ou do Alexandre Gamela (O Lago), que, com um olhar permanentemente atento, ajudam a “remar contra a maré”.
Se um terço dos professores universitários tivessem um terço das suas preocupações, teríamos uma educação, pelo menos um terço, melhor.
Continuação do bom trabalho…
Vejo que é um professor realmente preocupado com o futuro dos jornalistas. Nesse âmbito, peço que me responda à mensagem que lhe enviei sobre o quem é jornalista hoje em dia.
cumprimentos
Também eu gostava de partilhar isto:
Quase tudo o que sei hoje sobre jornalismo aprendi nas suas aulas. Mesmo. E não sou a única. Ainda esta manhã, em conversa com colegas que fizeram o Atelier de Jornalismo ao mesmo tempo que eu, relembrámos a escola que foi tê-lo como professor. É que ser professor – professor de jornalismo – não é só partilhar conhecimentos. É também (e sobretudo) partilhar experiências e estórias. Incentivar ao trabalho, dar dicas práticas. É não ficar preso no tempo, é adaptar-se às mudanças, é pensar o Jornalismo sem preconceitos.
Quando, no decorrer do meu trabalho, alguma questão aparece, penso como seria bom regressar àquela sala e projectar o meu texto na parede e ouvir os seus comentários e os da turma. Eram verdadeiras lições.
Agora faço do Ponto Media o meu “workshop diário” de Jornalismo.
Por isso, e por tudo o resto, obrigada.
Patrícia.
Tenho, obviamente, que subscrever tudo o que disse a Patrícia. Apesar de ter feito dois estágios e estar actualmente a trabalhar na área, também recordo muito aquelas aulas em que as pens faziam fila na mesa. O nosso entusiasmo sempre adiado, sempre entediado com alguma “teoria” de qualquer coisa, viu “nas aulas do Granado” uma oportunidade para aprender o que tanto queríamos. E que não fiquem dúvidas: nós absorvemos tudo.
É claro que um só professor não faz milagres, e hoje, apesar de todos os cursos, os jornalistas ainda se fazem pela experiência. Vamos tropeçando, andando, imitando os que estão ao redor. Isto, claro, quando temos emprego.
Caro António, partilho totalmente de suas angústias. Nesse momeneto estou a construir o programa de Gerenciamento de Empresas Informativas para as classes que se iniciam em março , e não existe gestão jornalística sem pensarmos no novo ambiente de redes sociais, no novo perfil profissional, etc, etc. E pior no velhor modo de pensar da universidade e seus dirigentes, coordenadores de curso que ainda vivem um passado morto e buscam o tempo todo contaminar o prosente e o futuro.
Um dia tenho esperanças de mudanças.
Forte abraço, Beth Saad
Conheço alguns alunos que passaram pelas “mãos” do António Granado e que hoje não se cansam de realçar a excelente forma como abordava as matérias.
Desde que apareceu o primeiro curso superior de jornalismo, que se fazem sentir as preocupações sobre a melhor preparação dos alunos para o exercício da profissão e designadamente para o mercado de trabalho. Mas agora, como realça o António Granado, mais do que nunca estas preocupações devem ter em conta a constante evolução das novas tecnologias- a “revolução em marcha” como lhe chama- e o impacto no exercício do jornalista do futuro.
A este propósito, penso que deveria haver uma cadeira específica de Jornalismo Digital nas universidades.
Granado, este seu post repercute ainda na blogosfera brasileira, principalmente entre pesquisadores e professores de jornalismo. O Atlântico não separa as nossas angústias e desilusões. As incertezas permanecem aqui também.
Vc chegou a mencionar que reserva boa parte de suas aulas para repassar aos alunos técnicas e preocupações com os novos sistemas de reputação. Pois fiquei curiosíssimo para saber como vc faz para aferir conhecimentos neste quesito. Isto é, que instrumentos de avaliação usa? Que critérios? Se puder dividir, agradeço.
Abraço
[...] Ponto Media: As angústias de um professor de jornalismo [...]
[...] QUE fiz aquele post sobre as angústias (e mesmo antes disso) tenho colecionado muitos links sobre os novos caminhos doensindo do [...]
[...] DAS minhas experiências no semestre passado com a reputação dos alunos nos media sociais, acabei de encontrar uma lista bem boa de ideias [...]