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Sexta-feira, Novembro 28, 2003Contribuição para a fogueira da objectividade e do jornalismoEM 1989, S. Holly Stocking e Paget H. Gross escreveram um livro chamado How Do Journalists Think : A Proposal for the Study of Cognitive Bias in Newsmaking, que ilumina a área dos processos cognitivos do jornalismo e nos dá uma ideia muito clara de como as coisas se processam nas cabeças de quem faz as notícias. Dizem estes dois professores que o processo cognitivo dos jornalistas está dividido em seis fases distintas: estímulo, categorização, geração de teorias, teste das teorias, selecção da infomação e integração da informação. A categorização é onde tudo começa. Quando avisados de um certo facto, os jornalistas imediatamente o categorizam e arrumam na prateleira correspondente. Ao dar-lhe um título -- que pode ser "o caso Moderna", ou "o processo Casa Pia", ou "SãoBentogate" --, os jornalistas comparam-no imediatamente, ainda que insconscientemente, a outros casos semelhantes e o seu julgamento é influenciado por isso. Depois vem a geração de teorias. "Journalists regularly pursue hypothesis", referem (p.19). E as teorias podem ser as mais estapafúrdias: "Se fulano de tal está envolvido, então o ministro que é cunhado dele também deve saber e, se calhar, até instigou o facto". Dizem Stocking e Gross que a diferença entre um jornalista experiente e um jornalista novato se vê nesta fase: um repórter experiente e sério tem tendência a elaborar teorias menos extremas do que um repórter novato, que imediatamente vê aí o possível furo da sua vida. É na fase do teste das teorias que mais se nota a diferença entre jornalistas e cientistas (para pegar na questão levantada ontem pelo Jornalismo e Comunicação). Os jornalistas testam uma teoria de cada vez mas (1) seleccionam fontes que confirmem essa teoria; (2) limitam o âmbito das questões; (3) conversam com as fontes de modo a confirmar o que suspeitam; (4) dão extrema importância às questões que não foram respondidas. Na ciência, ainda que por vezes haja quem consiga fazê-lo, seria inaceitável só seleccionar processos para confirmar uma hipótese errada. Na ciência são muitos os artigos sobre hipóteses não confirmadas, no jornalismo são raros os artigos a desmentir uma hipótese surgida algures e que se afigura errada. Vem depois a selecção da informação. Há muito tempo que a psicologia sabe que as pessoas tendem a seleccionar a informação que confirma as suas teorias [É o que eu estou a fazer neste momento, por exemplo...]. Os jornalistas não são diferentes e, por isso, ignoram fontes que não confirmam as suas hipóteses e dão por vezes importância a pormenores irrelevantes, apenas porque eles podem ajudar a confirmar a sua hipótese. A integração da informação completa o ciclo. Fazem-se correlações ilusórias, simplifica-se em demasia a descrição dos factos, atribuiu-se a alguém os bons ou maus resultados, apresenta-se uma reconstrução errada dos factos, demonstra-se como era óbvio que aquilo teria de acontecer (hão-de reparar como é fácil prever um facto depois de ele acontecer...) Dito isto, é verdade que o jornalismo se aproxima da ciência em alguns dos métodos que utiliza, mas também é verdade que está muito longe do rigor científico. Os constrangimentos de tempo, principalmente, não lhe permitem esse rigor, a busca de hipóteses absolutamente contrárias às iniciais. Quando parte para a notícia, o jornalista já a escreveu muitas vezes mentalmente. Apenas precisa confirmá-la. António Granado, 00:06 / Link permanente /
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